‘Ver é sempre ver morrer’: falhas e defeitos na fotografia de Susana Paiva

Sandra Camacho


Palavras-chave: Fotografia Experimental, Obsolescência, Polaroid, Práticas ecológicas


Resumo

Com uma carreira de mais de três décadas, a artista portuguesa Susana Paiva (n. 1970) tem frequentemente utilizado na sua prática técnicas experimentais de fotografia, explorando e expandido as limitações e fronteiras do formato enquanto medium. Proponho nesta apresentação, que, em várias obras, Paiva apoia-se nas potencialidades do defeito inerentes a processos fotográficos alternativos para examinar o mundo natural, propiciando leituras ao seu trabalho sob uma perspectiva eco-crítica.

Em 2020, Paiva inspirou-se na prosa poética de Rui Nunes (Lisboa, 1945), para desenvolver Na imprecisa visão do vento, uma série de intervenções sobre Polaroids com defeitos químicos que gerou um fotolivro e um ensaio visual. Sugiro que aqui, ao escolher trabalhar com materiais imperfeitos, imprevisíveis nos seus resultados, no que Diogo Martins aponta como “[u]ma ruína que já o é antes de o tempo ter infligido sobre as coisas um efeito de corrosão ou desbaste” (Paiva & Martins 2020, p.36), Paiva enfatiza a obsolescência do formato ligando-o à própria fragilidade do processo fotográfico. A imagem fotográfica é criada pela luz, mas exposta em demasia a esta amarelece e desaparece, algo que Paiva destaca quando toma como suas as palavras de Nunes, “ver é sempre ver morrer”. Assim, na utilização de um material obsoleto, podemos identificar a dimensão utópica no fim da vida útil de qualquer tecnologia defendida por Rosalind Krauss (2000, p.41), uma dimensão que pelas suas associações à ruína e à nostalgia refletem preocupações com degradações climáticas. Adicionalmente, ao separar as várias camadas das Polaroid, Paiva cria imagens abstractas, que se assemelham a matérias orgânicas como pele ou fungos, aproximando-as do mundo natural.

Em Rama (Novembro 2022 e Março 2023) e Do Princípio do Mundo (2022), a artista apoia-se num outro processo experimental de fotografia, o quimigrama. Aqui o papel fotográfico, frequentemente expirado, é coberto de materiais como gordura, vaselina, ou cera, que se dissolvem de forma lenta e não uniforme no revelador. Partindo de residências artísticas em Torres Vedras e na Mata dos Medos, Almada, a artista incorpora plantas e materiais recolhidos na área para a criação das suas imagens fotográficas, ligando-as ao meio ambiente. Da mesma forma, ao utilizar papéis fotográficos já em processo de degradação, Paiva recupera material que seria desperdiçado, salientando o valor artístico e histórico do mesmo.

Partindo destas obras, e analisando os anos mais recentes da carreira da artista, proponho nesta apresentação examinar o processo de apropriação de formatos obsoletos e técnicas experimentais da fotografia de Paiva, situando assim a sua prática artística numa prática ecológica.



Referências
  • Krauss, R. (2000). ‘A Voyage on the North Sea’: Art in the Age of Post-medium Condition. Thames & Hudson.
  • Paiva, S., & Martins, D. (2020). Na imprecisa visão do vento. Terceira Pessoa – Associação.
  • Paiva, S. (Director). (2020). Na imprecisa visão do vento. https://vimeo.com/759052336

Bio



EN

Sandra Camacho has a PhD in Comparative Studies from the School of Arts and Humanities, University of Lisbon. She is developing a postdoctoral project on the creative potential of technological limitations in Portuguese 21st-century photography in ICNOVA, FCSH – NOVA University Lisbon. Her main areas of interest are archival art, the digital archive, media archaeology, intermedia and interarts studies.

PT

Sandra Camacho é doutorada em Estudos Comparatistas pela Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa. Desenvolve o projeto pós-doutoral, Explorações Artísticas de Limitações Tecnológicas na Fotografia Portuguesa do séc. XXI, no ICNOVA, FCSH-Universidade Nova de Lisboa. Tem como principais áreas de investigação o arquivo enquanto prática artística, arqueologia dos media, estudos interartes e intermedia.



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