Palavras-chave: imagem, fotografia, paisagem, ruína, colonialismo
Para a antropóloga Anna Tsing (2019), investigar paisagens requer atenção aos rastros, a coisas e seres de diversas escalas, exercício que pode revelar existências do presente invisibilizadas, mas também assembleias atuando em dinâmicas históricas: "Por história, refiro-me aos rastros e sinais humanos e não humanos, a como estes criam paisagens. [...] Prestar atenção às temporalidades das paisagens permite-nos observar sua dinâmica intersticial." (TSING, 2019, p. 94). A partir da proposta de uma residência artística coletiva que propôs um diálogo sobre dois lugares com mesmo nome, mas situados em países diferentes - um Fundão do Brasil e um Fundão de Portugal - iniciou-se um trabalho de pesquisa a partir de rastros em paisagens destes lugares: paisagens de imagens de mapas digitais, paisagens sonoras de rádios destes locais e paisagens coletadas em uma deriva fotográfica presencial realizada em um desses fundões, o do Brasil, localizado no Rio de Janeiro. Um processo de investigação que resultou em uma obra artística em vídeo; um mergulho em paisagens permeadas pelos problemas da exploração moderna e colonial e que culmina nas paisagens do Antropoceno. Durante a deriva fotográfica presencial realizada em uma destas paisagens, um rastro saltou aos olhos e significou o início desta narrativa audiovisual: uma pedra solta de um calçamento de pedra portuguesa. Também chamada de mosaico português, esta prática comum de calçamento com ornamentos e histórias surgiu entre meados do século XIX, prosperando em Portugal e em sua maior colônia, o Brasil. Uma prática que povoou as paisagens de cidades brasileiras e portuguesas, ajudando a compor o cenário da arquitetura modernista no Brasil e a contar histórias nacionais em cidades portuguesas, como a história do vinho do Porto. Um trabalho realizado de forma manual, antigamente pelos chamados mestres calceteiros, mas que atualmente vem sendo substituído por pisos considerados mais seguros. De fato, muitas das pedras se soltam e viram rastros da atividade humana. Eles precisam ser consertados, olhados por alguém. Todas as imagens, para surgirem e permanecerem vivas, precisam ser também sempre construídas e olhadas por alguém. O mesmo acontece com as fotografias das paisagens de mapas digitais, essas também compostas por suas pedras, os pixels - suas artificialidades geradas pelas câmeras digitais: "[...] como produto humano, ela cria também com esses dados luminosos uma realidade que não existe fora dela, nem antes dela, mas precisamente nela." (MACHADO, 1984, p. 41). Nos rastros que revelam a composição, quebra-se a ilusão de objetividade dessas imagens, assim como nas pedras soltas portuguesas, construções que são herança de um projeto colonial e moderno, no qual se revela tanto a história, como o presente. A quebra da estética realista dessas fotografias multiplica-as, as torna imagens-ficção (DUBOIS, 2017), mais uma das representações possíveis deste mundo, potencializando o caráter ficcional da fotografia desses nossos fe(i)tiches modernos (LATOUR, 2002), e abrindo espaço para o questionamentos e invenções por parte do espectador, exercício profícuo para um repensar das relações e miradas sobre as paisagens, ruínas e modernidades híbridas no Antropoceno.
PT
Caroline Jacobi é artista visual, fotógrafa, pesquisadora e ativista ambiental. Desde 2013, realiza uma pesquisa artística e teórica sobre ambiente, mudanças climáticas e territórios. Tem como interesse poético e estético as paisagens híbridas, que busca abordar a partir de fotografias digitais, analógicas e colagens de pixels e outros recortes de imagens. É doutoranda em Comunicação e Cultura pela UFRJ.
EN
Caroline Jacobi is a visual artist, photographer, researcher and environmental activist. Since 2013, she has carried out artistic and theoretical research on the environment, climate change and territories. Her poetic and aesthetic interest is hybrid landscapes, which she seeks to approach using digital and analogue photographs, pixel collages and other image cuts. She is a PhD student in Communication and Culture at UFRJ.