Cerâmica Macuxi do visível ao invisível

Larissa Silva Gonçalves


Palavras-chave cerâmica, imagem, símbolo, natureza


PT

Na Cerâmica do Povo Indígena Macuxi habitantes de Roraima, os fazeres visíveis são permeados por saberes invisíveis, como parte de um pensar sentir reunido, de onde brotam simbolismos integrados e integradores da anima, que move a psique humana. As investigações sobre simbolismos, fim mesmo do exercício e pesquisa sobre a criação, imagem e arte, tem nas teorias do imaginário a principal fonte de referência. Da imaginação material de Bachelard, ao conjunto de simbolismos que compõe o humano, nas bacias semânticas de Durand, passando pelo conceito de mediação simbólica de Vygotsky, o exercício da criação reúne dimensões visíveis e invisíveis, sensações físicas e devaneios oníricos, que impulsionam o desvelar da razão. É assim que, para o desejo de conceituar necessário é devanear buscar um diálogo entre o que a visão alcança e o que a razão desconhece. E há tanto o que a razão desconhece! Ainda mais se falarmos de uma razão brasileira centrada em visões temperadas, distante geográfica e sensivelmente, das percepções que tangenciam e atravessam linhas imaginárias equatorianas, de onde o Brasil é hemisfério Norte. Quais sonhos, percepções, razões, habitam as terras do extremo norte brasileiro? Ou seria extremo sul do hemisfério norte?! É deste território, meio norte meio sul, totalmente equatoriano, tão pouco Brasil (para os padrões brasileiros), que soa potente uma voz silente a chamar à lembrança, o que nutre a razão. Voz que as ceramistas indígenas, habitantes originárias das terras, águas, lavrado, floresta, serras e planície roraimense, resguardam a tradução, em uma legenda que exige aquietar a certeza da racionalidade temperada eurocêntrica, para abrir percepção a um processo de auscultação da interioridade da terra, da materialidade física e simbólica. Roraima possui solo prioritariamente argiloso e as Mestras Ceramistas Indígenas guardam uma relação respeitosa e cuidadosa com o barro, que para elas não é somente um material, mas um Ser invisível, uma encantada com quem elas dialogam constantemente e É quem dirige e orienta os fazeres do barro. Autorizadas que fomos pelas mestras, para falar da encantada nomeada pela ancestralidade Macuxi, como Koko’Non – Vovó Barro partimos de sua voz originária, sagrada, a sussurrar no silêncio de um íntimo que se põe a ouvir, o sopro da inspiração criativa, para deixar registrado na matéria, marcas, sonhos, formas, cores, de tempos e espaços diversos. É nesta trilha que somos convidadas a caminhar! Trilha dos meandros da criação simbólica, vivencial e teórica, em dimensões do perspectivismo indígena, que transcende dicotomias e resulta em encontro com simbolismos internos.

Símbolos imagens, que constituem e nutrem à CriAção, em consonância à pesquisa imagética, que parte do (in)visível para manifestar no visível, movimentos de conscientização criativa, com mãos, corpo e mente, em contato profícuo com a Vovó Barro! Sabedoria originária, manifestação da vida simbólica, resistindo na manutenção da vida natural, de onde se nutre e desenvolve, a vida humana. A esta fonte simbólica artística vivencial, saudamos com um Viva! E muito respeitosamente agradecemos seguindo de mãos dadas a nutrir à CriAção!


Bibliografia

  • BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. Tradução: Antonio de Padua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
  • DURAND, Gilbert. O imaginário: ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. Rio de Janeiro. Difel, 2004.
  • VIGOTSKY, Lev. S. Imaginação e criação na infância: ensaio psicológico. Tradução: Zoia Prestes. São Paulo: Ática, 2009.
  • DUARTE, Amanda de Almeida. Cerâmica Macuxi: um registro a partir do encontro com as Mestras Indígenas Ceramistas Lídia Raposo e Joana Fidelix. 2022. 58 f. TCC (Trabalho de Conclusão de Curso Artes Visuais) – Universidade Federal de Roraima, Boa Vista/RR, 2022.
  • VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2015.


Nota biográfica


PT

Larissa Silva Gonçalves Professora Adjunta do Curso de Artes Visuais Licenciatura/UFRR. Coordena o Projeto de Extensão Encontros CriAtivos onde desenvolve a Pedagogia Imagética, sistematização de ações visando a formação simbólica, de grupos intergeracionais (criança, jovens e adultos), por meio de leitura de imagens internas, em diálogo com aprendizagens de linguagens artísticas. Ceramista graduada em Artes Plásticas. Licenciada em Artes Visuais. Especialista em Educação Infantil. Mestre em Educação e Doutora em Sociedade e Cultura, pesquisa e atua nas áreas de Arte Educação e Cultura, com enfoque em teorias do imaginário, criação e formação simbólica humana. E-mail: profalarissagoncalves@gmail.com Lattes: http://lattes.cnpq.br/4284730616452174 - ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1648-396X


EN

Larissa Silva Gonçalves Adjunct Professor of the Visual Arts Degree Course/UFRR. Coordinates the Encontros CriAtivos Extension Project where she develops Image Pedagogy, systematization of actions aimed at the symbolic formation of intergenerational groups (children, young people and adults), through the reading of internal images, in dialogue with learning artistic languages. Ceramist graduated in Fine Arts. Degree in Visual Arts. Specialist in Early Childhood Education. Master in Education and PhD in Society and Culture, researches and works in the areas of Art, Education and Culture, focusing on theories of the imaginary, creation and human symbolic formation. E-mail: profalarissagoncalves@gmail.com Lattes: http://lattes.cnpq.br/4284730616452174 - ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1648-396X


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